"Auto da Índia" (2000) / Peças

de Gil Vicente

    Estreia: 04/02/2000
    Encenação: Gil Salgueiro Nave
    Interpretação: Alexandre Barata, Ana Filípa Trindade, Bina Ferreira, Rogério Bruno, Rui M. Silva 
    Operação de luz: Pedro Fino
Obra datada de 1509, o Auto da Índia é uma peça de enredo. A intriga desenrola-se ao longo de vários anos, com abreviações cronológicas que lhe imprimem um andamento ágil e vivo. Além disso a encenação só é possível por meio de decorações simultâneas. Todos estes aspectos inculcam que não se trata, de modo algum, da tentativa de um estreante. Tem-se a impressão, pelo contrário, de que ao escrever esta primeira farsa Gil Vicente se instala desenvoltamente nas regras de um género antigo com que já estava familiarizado. A heroína é uma mulher de Lisboa cujo marido parte para a Índia. Durante a sua ausência, que dura alguns anos, a mulher assim deixada sozinha leva vida divertida, com a cumplicidade da criada, e mantém ao mesmo tempo duas ligações. Enquanto um dos amantes está dentro de casa, o outro espera à porta, impaciente. Mas, entretanto, o marido volta da Índia, tão pobre como quando partira, e narra as suas campanhas, que não tiveram nada de heróico nem nobilitante: Fomos ao rio de Meca pelejámos e roubámos. A mulher, por seu lado, mentindo com tranquila impudência, afirma que esteve roída de saudades durante a ausência do seu querido esposo. E, para terminar, marido e mulher, felizes e despreocupados, retomam pacificamente a vida em comum como se nada se tivesse passado. O Auto da Índia afigura-se um contraponto das ideias feitas, da moral corrente e da ideologia oficial. Em tudo isso se vê facilmente o «reverso do mito dos Descobrimentos». Os heróis do Oriente são reduzidos às dimensões da humanidade mediana e as suas mulheres fazem deles maridos atraiçoados enquanto estão ausentes. O tema da infidelidade feminina, que aparece em outras farsas, é tratado com divertido cinismo. E, ao cabo, a mulher retorna ao leito conjugal sem o menor constrangimento e até com certo prazer. (Paul Teyssier "in Gil Vicente - o autor e obra")

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