"As Possibilidades" (2010) / Peças

de Howard Barker

    Estreia: 23/09/2010

    Encenação: Rogério de Carvalho
    Interpretação: Ana Peres, Fernando Landeira, Pedro Damião, Pedro da Silva, Rui Raposo Costa, Sónia Botelho e Teresa Baguinho
    Cenografia e figurinos: Luís Mouro
    Desenho de Luz: Jorge Ribeiro
    Operação de luz e som: Joana Oliveira e Vasco Mosa
    Produção: Alice Dias
    Secretariado: Eugénia Nunes
    Assessoria de imprensa: Vanessa da Silva
    Fotografia: Paulo Nuno Silva

1. “As Possibilidades” de Howard Barker é um conjunto de dez fragmentos sobre situações de violência aparentemente físicas, de grande impacto trágico sobre a condição finita do homem. Podemos colocá-los numa perspectiva da Tragédia.
2. O autor, decerto, se enquadra na Tragédia Contemporânea. E sendo poeta e pintor, o seu teatro reflecte vertentes do teatro contemporâneo: a importância do texto e da imagem.
3. Há uma poética inerente à sua obra: o dom e a plenitude da palavra, não no sentido da escrita mas no sentido da enunciação. O teatro de Barker é poético e de estrutura complexa, não permitindo a ilustração das personagens nem a construção a priori e mental dos universos que se cruzam e se manifestam, ao nível do inconsciente. É difícil abordá-lo pelo lado linear das acções e muito menos pela narrativa de uma história com princípio, meio e fim. Tudo se configura na emoção forte da palavra e na ironia trágica das situações. O prazer do que é dito, o silêncio suspenso na acção, o vigor com que o actor contamina o espectador, o esforço em querer decifrar o que se diz e o que se faz na representação são factores que o espectador tem de levar em conta.
4. Os espectadores, decerto, não terão ideias comuns sobre o que se desenrola em cena. Não há uma certeza nem a dúvida se instala para anular qualquer tipo de certeza. As consequências imprevistas de um fragmento torna risível qualquer tentativa de processo lógico.
5. O actor vive a técnica da montagem, procura a não ilustração e segue uma prática pedagógica de tentar disciplinar o efeito de enunciação do texto.
6. Antes de explorar o mundo externo explorar a realidade psíquica: eis, o actor, na luta como criador e como meio de expressão, nomeadamente a voz. O actor sendo um criador deve poder traduzir a sua visão interna do mundo e por sua vez, estar convencido de que é capaz de transmiti-la.
7. O teatro de Barker traduz o inferno da criatividade. É infernal o trabalho de levantamento dos universos povoados pelas suas personagens: ambiguidades, complexidades, incertezas, domínio técnico de execução e predomínio do comportamento inconsciente sobre o comportamento consciente.
8. Algumas das suas fontes passam pela tragédia grega e pela psicanálise.
9. Não cair no erro de tentar explicar cada um dos fragmentos (é um desafio que cabe ao espectador); o inconsciente é parte desse todo como manifesto do teatro catastrófico de Barker e causa do Fim em que já nada pode sobreviver. Barker não julga a História mas coloca-nos perante o absurdo de um fim possível. 

 

 

Outras peças em cena