“Os Sulcos da Sede” (2002) / Peças

de poesia de Eugenio de Andrade

    Estreia: 20/11/2002
    Selecção de textos: Fernando Paulouro Neves
    Direcção Artística e sonoplastia: Gil Salgueiro Nave
    Cenografia e figurinos: Luís Mouro
    Iluminação, operação de luz, som e audiovisual: Pedro Fino
    Construção e montagem de cenários: Pedro Fino, Tó Fonseca, Marinho Gonçalves
    Direcção de Produção: Fernando Sena
    Secretariado: Eugénia Nunes, Alice Dias
    Fotografia: Paulo Nuno Silva
    Cartaz: Luís Mouro
    Costureira: Rosa Fazendeiro
    Alfaiate: Alfaiataria Juvenal
    Interpretação: Rogério Bruno Sena

    Na gravação do poema “Canção infantil” participaram os meninos Vanessa Couto, Juliana Oliveira, Joana Faísca, Ana Carolina Melo, Carolina Ribeiro Carlos, Margarida Raposo, Mariana Figueira e Beatriz Martins, alunos da professora Carla Fernandes da Academia de Música e Dança do Fundão.
    Os poemas “Canção” e “Retracto” foram musicados por Gil Salgueiro Nave e interpretados por Isabel Bilou. “ Retracto” tem acompanhamentos em contrabaixo de Joaquim Gil 
“Sou filho de camponeses, passei a infância numa daquelas aldeias da Beira Baixa que prolongam o Alentejo e, desde pequeno, de abundante só conheci o sol e a água. Nesse tempo, que só não foi de pobreza por estar cheio do amor vigilante e sem fadiga de minha mãe, aprendi que poucas coisas há absolutamente necessárias. São essas coisas que os meus versos amam e exaltam. A terra e a água, a luz e o vento consubstanciaram-se para dar corpo a todo o amor de que minha poesia é capaz. As minhas raízes mergulham desde a infância no mundo mais elementar. Guardo desse tempo o gosto por uma arquitectura extremamente clara e despida, que os meus poemas tanto se têm empenhado em reflectir; o amor pela brancura da cal, a que se mistura invariavelmente, no meu espírito, o canto duro das cigarras; uma preferência pela linguagem falada, quase reduzida às palavras nuas e limpas de um cerimonial arcaico – o da comunicação das necessidades primeiras do corpo e da alma. Dessa infância trouxe também o desprezo pelo luxo, que nas suas múltiplas formas é sempre uma degradação; a plenitude dos instantes em que o ser mergulha inteiro nas suas águas, talvez porque então o mundo não estava dividido, a luz cindida, o bem e o mal compartimentados; e, ainda, uma repugnância por todos os dualismos, tão do gosto da cultura ocidental, sobretudo por aqueles que conduzem à mineralização do desejo num coração de homem. A pureza, de que tanto se tem falado a propósito da minha poesia, é simplesmente paixão, paixão pelas coisas da terra, na sua forma mais ardente e ainda não consumada.” Eugênio de Andrade

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