Em Cena


As criaturas vulgares
Se “A Força do Hábito” fosse um quadro de Magritte, teria inscrita a frase: “Isto não é um retrato de artistas”. Artistas relutantes, diga-se. Exilados, ambulantes – o público no escuro é reconhecido pelo faro apurado de Garibaldi: em cada cidade, um cheiro diferente. Os artistas odeiam-se entre si, não se entendem, embora precisem uns dos outros, e por isso mesmo. Para tocar em conjunto, para continuarem vivos. Continuando a ensaiar o “Quinteto da Truta”.
A vida de todos os mortais precisa de narrativas construídas pelos artistas. E de que se alimentam os artistas para sua sobrevivência, para além do cheiro do público? Doutras artes, doutras práticas que lhes exigem persistência em busca da perfeição. A par dos afectos esquinados pelas ovelhas tresmalhadas da família e das memórias extremas. Dos momentos inesquecíveis, entre a ocasião sublime e o acidente fatal. Provas de vida a cada dia de ensaio, dentro e fora da “pista”. Sentidos alerta: um passo em falso, e é a morte do artista. Não desistir do treino e do rigor: cabeças e corpos. Ferrara / fé rara. De terra em terra, de estação a estação, a viagem com esperança no infinitamente difícil, inatingível.
Bento Domingues: “Na utopia, vive a esperança de uma outra sociedade; na esperança, vive a utopia de um outro mundo”.
Diz Garibaldi:
“A sociedade escorraça
de si
quem a ameaça”
(…)
“Não resta senão”, diz o mesmo Garibaldi,
“entrar com o arco a tocar
pela morte dentro”
Entretanto não se fala de produção nem de consumo. Tão só da alma, igual à peça de madeira que une as costas à frente dos instrumentos de corda e que faz ressoar o som.
“Toda a palavra é uma invocação”, como no teatro!
“A arte que se faz
nunca mais
deixa em paz a cabeça”.
Uma homenagem que Thomas Bernhard presta à gente do Teatro, do Circo e da Música, com verrina e ternura. Criaturas (in)vulgares em versão de câmara.

Nuno Carinhas
Teatro das Beiras, Covilhã, outubro de 2020
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Ainda sobre este texto
"Já passaram quantos anos desde a última vez que falámos, perguntou ele", um texto que escrevi em 2011 para um espectáculo estreado no TEP – Teatro Experimental do Porto, é uma peça que gostava muito que fosse sobre a minha geração e sobre aquilo que nos tem acontecido. É sobre os nossos amores, casamentos, divórcios, as mudanças de casa, as partidas. Sobre o passar dos anos, sobre o entrar na vida adulta, sobre abandonar sonhos, sobre arranjar trabalho, sobre trabalhar, sobre andar apaixonado. Gostava que este texto fosse uma coisa sobre a vida em Portugal nas últimas décadas – mais ano menos ano. Um texto sobre amigos que vêem os amigos a crescer e a mudar. Um texto sobre a vida que fui vivendo, sobre a que me foram contando e sobre a que fui vendo. Em casa, no trabalho, nas ruas, nas manifestações, nos livros e nos jornais. Passaram, entretanto, dez anos. E este é agora um texto para hoje. Para o que ainda nos vai acontecendo. E tem acontecido tanta coisa. A peça é construída num diálogo próximo com um outro texto, estreado em Portugal em 1967, no Teatro Experimental do Porto: O tempo e a ira, de John Osborne, com encenação de Fernando Gusmão. As quatro personagens do meu texto (Jaime, Cláudio, Alice e Helena) são “projecções” (mais ou menos distorcidas) de quatro das personagens do texto de Osborne: do arquetípico jovem revoltado Jimmy Porter; do enigmático mediador afável Cliff; da frágil e estóica Alison, a filha do Coronel; e da intensa Helena Charles, actriz. Além disso, aquilo que “acontece”ao quarteto português é o mesmo que “aconteceu” ao quarteto britânico. Os amores e desamores são (mais ou menos) os mesmos. Os erros são (mais ou menos) os mesmos. A raiva é mais ou menos a mesma. Mas com uma diferença maior. Nos anos cinquenta os Angry Young Men revoltavam-se contra todo um sistema de valores que declaravam obsoleto. Punham em questão as noções de Império, de masculinidade, de identidade, de futuro. A raiva era essencialmente uma questão geracional. “Look Back in Anger apresenta a juventude do pós-guerra tal como ela é […]. Todas as suas qualidades estão lá, qualidades que já não supúnhamos ver aparecer em palco – a deriva para a anarquia, um instintivo ideário de esquerda, a rejeição automática das atitudes ‘oficiais’, um sentido de humor surrealista, a promiscuidade casual, a sensação de que falta uma cruzada pela qual valha a pena lutar e, sublinhando tudo isto, a determinação de que ninguém deve morrer sem que se lhe faça o luto”, escrevia o influente crítico Kenneth Tynan, numa crítica entusiasmada titulada “A voz dos jovens” (Observer, 13 de Maio de 1956). E terminava a sua crítica com a apaixonada declaração: “Não sei se seria capaz de amar alguém que não queira ir ver Look Back in Anger. É a melhor peça jovem da sua geração”. Estava tudo dito. Hoje as coisas são muito diferentes. Mas. A raiva do Jaime é diferente da raiva do Jimmy. A nossa raiva é confusa, dispersa, plural. Ou, pelo menos, a minha é assim. Se é que lhe posso chamar raiva. É pela promessa de liberdade que se esfumou. É uma raiva pela destruição das coisas verdadeiramente importantes – a paz, o pão, educação, saúde – banhada num mar de irrelevâncias, banalidades e futilidades. É a raiva da indignação. As coisas são hoje muito diferentes. Mas.
Rui Pina Coelho
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“Pequeno retábulo de García Lorca” é uma criação original organizada a partir da obra de Federico García Lorca, poeta, dramaturgo e artista plástico espanhol do séc. XX. A “escrita” dramatúrgica que produzimos decorre da abordagem à multifacetada obra do autor; poemas,(La guitarra, Romance de la luna luna), canções (Anda Jaleo, Las tres morillas de Jaén, La nana de Sevilla, Zorongo gitano e La Tarara) diálogo de La doncella el marinero y el estudiante, o guião cinematográfico Viaje a la luna e o texto dramático para bonecos, Retablillo de don Cristóbal ”, textos referenciais onde se reconhece a herança da teatralidade popular mediterrânica por um lado, mas também as influências do movimento modernista, concretamente a corrente surrealista do século XX. Consideradas, no seu tempo, obras de caráter vanguardista onde se pressentem estes movimentos artísticos, atraíram muitos criadores do espaço ibérico e em várias disciplinas; artes plásticas, literatura, música ou cinema. O espectáculo decorre da abordagem suportada por sinais que evocam a presença desses movimentos artísticos capazes de despertar a curiosidade e interesse nos espetadores de hoje, promovendo o encontro com estéticas artísticas que constituíram matéria de referência, confirmando consistentemente a universalidade da obra do autor como um valioso contributo para a edificação da ideia de cultura e da sua importância no desenvolvimento das sociedades. Obra que é um património da humanidade e, como tal, merecedora de reencontro para ser de novo contada ao público do nosso tempo, público heterogéneo, a quem queremos estimular e convidar para a fruição do teatro e das artes em geral, abrindo mais um espaço de análise que incentive a sua sensibilidade e o seu sentido crítico. A nossa proposta contém ainda uma renovada e sempre estimulante leitura sobre os conceitos do “popular” e “erudito”, estabelecendo uma ponte entre as artes tradicionais e a criação contemporânea. O teatro como uma arte multidisciplinar com recurso a linguagens diversas.
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Quem se chama José Saramago é uma meditação sobre o erro, uma visão sossegada do universo do escritor português em que se confrontam as diferentes fases da sua vida com os livros que as prepararam ou que foram sua consequência; uma vida e uma obra que acabaram por merecer-se; um labirinto em cujo centro reside a ascensão humana contínua de um homem que viveu desassossegado e escreveu para desassossegar.
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